A PAISAGEM EXÓTICA TROPICAL COMO EXPERIÊNCIA COTIDIANA DE IDENTIDADE NACIONAL
Regina Lúcia de Faria – Aarthus Universitet
Nessa apresentação, procurarei tratar a paisagem como um artefato e sua relação com a identidade nacional, valendo-me para isso de textos literários brasileiros. Como observam Susan Pearce (1991) e Catherine Palmer (1998), o estudo dos aspectos materiais da cultura inclui uma variedade de objetos. Apresentando os exemplos oferecidos por Catherine Palmer, as obras literárias e as exposições em museus e galerias de arte assim como nossos corpos, a comida que comemos e a natureza física que nos cerca são objetos do mundo material e todos servem para definir quem e o que somos tanto para nós mesmos como para os outros (1998: 176). Como objetos, eles funcionam como alter-ego e egos paralelos, pois nosso uso e entendimento deles dão a conhecer nós próprios e nossa identidade de forma tão efetiva como a palavra falada. Antes, porém, de abordar a paisagem como experiência cotidiana de identidade nacional, tratarei rapidamente do conceito de nacionalismo, nação, nacionalidade, nation-ness e o de “nacionalismo banal”, sugerido por Michael Billig, que, segundo o autor, é uma das formas de experimentar cotidianamente o sentimento de nation-ness. Gostaria ainda de assinalar que esse texto representa um resultado parcial da pesquisa que venho desenvolvendo.
Embora sejam de uso corrente e exerçam enorme influência no mundo atual, os termos “nação”, “nacionalismo” e “nacionalidade” têm-se mostrado conceitualmente problemáticos para a crítica em geral. Benedict Anderson compreende-os como “artefatos culturais de um tipo peculiar” (plasmados por volta dos fins do século XVIII e resultantes de um complexo cruzamento de sistemas culturais precedentes – a comunidade religiosa e o reino dinástico – e de uma mudança fundamental no modo de apreender o mundo) que se “tornaram modulares, passíveis de serem transplantados, com graus diversos de consciência, para uma grande variedade de terrenos sociais, para amalgamarem e serem amalgamados a uma variedade igualmente grande de constelações políticas e ideológicas” (1989: 12-13). Definindo nação como “uma comunidade política imaginada – e imaginada como inerentemente limitada e soberana” (1989: 14), Anderson observa ainda que a junção entre o capitalismo editorial e o protestantismo favoreceu igualmente para se pensar a nação, na medida em que criou grandes públicos leitores que pouco ou nada conheciam de latim (1989: 50). Conforme suas palavras: “Num sentido positivo, o que tornou imagináveis as novas comunidades foi uma interação semifortuita, mas explosiva, entre um sistema de produção e de relações produtivas (capitalismo), uma tecnologia de comunicações (a imprensa) e a fatalidade da diversidade lingüística do homem” (1989:52). Os inuneráveis e variados idioletos da Europa pré-imprensa foram agrupados, “dentro de limites definidos, em um número muito menor de línguas impressas” (1989: 53). Tais línguas impressas desempenharam um papel fundamental na emergência da consciência nacional, pois “criaram campos unificados de intercâmbio e comunicação abaixo do latim e acima das línguas vulgares faladas”, deram “nova fixidez à língua”, e criaram novos tipos de línguas-de-poder , já que certos dialetos estavam inevitavelmente mais próximos das línguas impressas e dominavam as suas formas finais enquanto outros permaneciam dialetos pois não poderiam insistir em suas próprias formas impressas (1989: 54-55). Assim, a experiência de nacionalidade, melhor dizendo, de nation-ness, expressão cunhada pelo crítico, tornou-se imaginável a partir da emergência combinada de fatores tais como a imprensa capitalista, a alfabetização e a comunicação em massa, a democratização política, já que habilitaram as pessoas a se conceberem ligadas umas às outras através do espaço e do tempo. Para Anderson, “nação” é, portanto, uma comunidade concebida como um companheirismo horizontal profundo através do qual cada indivíduo imagina que cada um/uma de seus/suas concidadãos/concidadãs tem um mesmo entendimento básico do que seja a nação. Além do mais, a nação é uma comunidade “imaginada” porque “nem mesmo os membros das menores nações jamais conhecerão a maioria de seus compatriotas, nem os encontrarão, nem sequer ouvirão falar deles, embora na mente de cada um esteja viva a imagem de sua comunhão” (1989: 14). Nesse sentido, a identidade nacional é sobretudo uma comunhão experimentada através da família imediata, amigos e vizinhos, e a idéia de nação está intimamente ligada a um sentido de história, às memórias e às tradições que foram transmitidas de uma geração para outra.
Como as pessoas comuns, tanto de uma maneira individual como coletiva, passam a sentir-se parte de uma identidade nacional particular? O que acontece no plano do cotidiano que permite as pessoas manterem, consciente ou inconscientemente, contato com suas raízes? Para Michael Billig, uma maneira de responder a essas questões é através do conceito do nacionalismo banal, banal aí entendido como lugar comum. Segundo o crítico, nacionalismo banal refere-se a hábitos ideológicos repetidos diariamente, mas que, de uma maneira geral, não são notados, pois sua aparente inofensividade e insipidez não despertam para si uma atenção especial (1995: 6).
De acordo com a sua argumentação, para o homem ou a mulher comum, o nacionalismo é um sentimento experimentado em tempos de guerra, em períodos de crise, quando grupos, indivíduos ou países sentem-se ameaçados de alguma maneira, e caracteriza-se por uma retórica explícita, típica dos líderes políticos. Daí, a tendência de considerar o nacionalismo como um sentimento ensaiado em situações de exceção. Sua emergência, normalmente, vem acompanhada por um tipo específico de retórica que ressalta a importância daquilo que está acontecendo. Por outro lado, a consciência da nação não se restringe ao estado ou a ocasiões especiais. Nacionalismo, conforme nota, “longe de ser uma disposição intermitente das nações constituídas”, é a condição endêmica” (1995: 6). Nesse sentido, há uma contínua lembrança de nacionalidade cotidianamente. Como afirma:
Essa lembrança é tão familiar, tão contínua, que não é registrada de maneira consciente como lembrança. A imagem metonímica do nacionalismo banal não é uma bandeira que está sendo conscientemente acenada com paixão fervorosa; é uma bandeira hasteada despercebidamente num prédio público. (1995: 8)
O conceito de nacionalismo banal de Billig ilustra como o sentimento de nacionalidade é mantido e transmitido no cotidiano de forma diversa tanto daquelas desenvolvidas pela retórica dos estados como daquelas presentes nas páginas de esporte dos jornais diários.
Retomando o que foi exposto anteriormente a respeito dos artefatos culturais como vetores de construção e afirmação cotidiana de identidade nacional, a paisagem é um dos elementos de maior força identificadora, tanto num plano local como num mais global, pois representa a. possessão de um território, a terra natal, daqueles que vivem dentro de uma determinada fronteira, mantendo uma relação com a história e as raízes da nação e, portanto, reforçando os elos do povo com um passado, constituidor de sentido do momento presente. Nesse aspecto, a paisagem não é apenas a expressão simbólica do passado de uma nação, é também seu presente e seu futuro.
Por outro lado, a utilização da paisagem como representação de um país é relativamente recente; data do século XVI, quando mapas e atlas começam a ser publicados. Como observou Willian G. Hoskins, só a partir da publicação de mapas e atlas que as pessoas puderam passar a imaginar e a visualizar que onde elas viviam fazia parte de um território que constituiria um país, uma nação. Isso permitiu que pessoas de diversas regiões passassem a se ver como parte integrante de um grupo maior. Nesse sentido, a paisagem é um vetor de produção de identidade tanto regional como nacional (1963: 211).
Antes de tratar da paisagem exótica tropical como uma das formas de experimentar cotidianamente o sentimento de nation-ness, uma última observação. Se a paisagem pode ser considerada como um elemento natural, como algo dado, fora da esfera da produção humana, os sentidos e os usos que lhe são conferidos são construções culturais. Nesse aspecto, portanto, a paisagem é tanto um dado natural como um artefato cultural.
O uso da paisagem como expressão da identidade nacional é recorrente nos textos brasileiros. A paisagem externa funciona como uma metáfora da paisagem interior da identidade nacional. Descrever a paisagem significa, portanto, falar de Brasil, falar de nossa identidade nacional.
Em recente artigo publicado na Folha de São Paulo, Marilena Chauí observa que “um traço marcante da mentalidade do final da Idade Média e da Renascença foi o sentimento da caducidade do mundo e da necessidade de seu renascimento ou de passar do outono do mundo a uma nova primavera, concebendo o Tempo do Fim como retorno à origem perdida”. Nesse sentido, a chegada dos europeus no Novo Mundo não significou apenas “o cumprimento da profecia do alargamento da ciência e o anúncio do milênio como Era do Espírito”. Conforme ainda observa:
Antes de ser designado como América ou Brasil, o “aqui” se chamava Oriente, um símbolo bifronte: sede econômica e política dos grandes impérios da Índia e da China (descritas nas viagens maravilhosas de Marco Polo e Mandeville), mas também sede imaginária do Paraíso Terrestre, preservado das águas do dilúvio e descrito no Gênese como terra austral e oriental, cortada por quatro rios imensuráveis, rica em ouro e pedras preciosas, de temperatura sempre amena, numa primavera eterna. (2000)
Observação semelhante já havia sido assinalada por Sérgio Buarque de Holanda, em Visão do Paraíso. De acordo com o historiador:
Colombo, sem dissuadir-se de que atingira pelo Ocidente o Oriente, julgou-se em outro mundo ao avistar a costa do Pária, onde tudo lhe dizia estar o caminho do verdadeiro Paraíso Terreal. Ganha com isso significado pleno a expressão “Novo Mundo” (...) para designar as terras descobertas. Novo não só porque ignorado, até então, das gentes da Europa (...), mas porque parecia o mundo renovar-se ali e regenerar-se, vestido de verde imutável, banhado numa perene primavera, alheio à variedade e aos rigores das estações, como se estivesse verdadeiramente restituído à glória dos dias da Criação. (1992: 204)
Dessa forma, retomando Marilena Chauí, “Menos um conceito geográfico, ainda que para os conquistadores fosse um conceito geopolítico, militar e econômico, a América foi para os viajantes, evangelizadores e filósofos uma construção imaginária e simbólica” (2000). Como observa, as cartas, os diários de viagem, relatos da vida americana, perspectivas filosóficas e políticas dedicadas ao Novo Mundo são “muito menos descrições e interpretações de experiência novas diante do novo e muito mais comentários, exegeses de outros, antigos, que teriam descrito e interpretado as terras e gentes novas” (2000).
Se a Carta de Pero Vaz Caminha ao rei de Portugal por ocasião da chegada da esquadra de Pedro Álvares Cabral na costa brasileira, em 1500, é, do ponto de vista europeu, a confirmação de algo já anunciado, para nós, ela funciona como uma narrativa de origem. Elaborada no período de conquista, essa narrativa não cessa de se repetir porque opera como nosso mito fundador. De acordo ainda com Marilena Chauí, um mito fundador é aquele que não cessa de encontrar novos meios para exprimir-se, novas linguagens, novos valores e idéias, de tal modo que, quanto mais parece ser outra coisa, tanto mais é repetição de si mesmo. Um dos elementos constituintes na construção desse mito é a identificação da paisagem com a “visão do paraíso”, visão que, conforme palavras de Marilena Chauí, de certa maneira, “determinará não só a imagem que possuímos do país, mas também nossa relação com a história e a política” (2000).
Descrevendo a terra recém-descoberta, Caminha ressalta em seu relato aspectos como a força da natureza (“Nessa ocasião não se pôde haver deles fala nem entendimento que servisse, pelo seu grande estrondo das ondas que quebravam na praia” [1996: 77]); a previsibilidade de sua grande extensão (“Esta terra, Senhor, parece-me que, da ponta que mais contra o sul vimos, até outra ponta que contra o norte vem, de que nós deste ponto temos vista, será tamanha que haverá nela bem vinte ou vinte cinco léguas por costa. Tem, ao longo do mar, em algumas partes, grandes barreiras, algumas vermelhas, outras brancas; e terra por cima é toda chã e muito cheia de grandes arvoredos. De ponta a ponta é tudo praia redonda, muito chã e muito formosa” [1996: 97]): a riqueza da terra associada à pujança da natureza (“Águas são muitas; infindas. E em tal maneira graciosa que, querendo-se aproveitar, dar-se-á nela tudo, por bem das águas que tem.”); a temperatura amena (“Porém a terra em si é de muito bons ares, assim frios e temperatura como de Entre-Douro e Minho” [1996: 97]); a sugestão de existência de ouro e prata (“Todavia, um deles fixou o olhar no colar do Capitão e começou a acenar para a terra e logo em seguida para o colar, como querendo dizer que ali havia ouro. Fixou igualmente um castiçal de prata e da mesma maneira acenava para a terra e logo em seguida para o colar, como querendo dizer que lá também houvesse prata” [1996: 80]); finalmente, a beleza dos corpos, a docilidade, o estado de inocência dos nativos que aqui viviam prontos para a evangelização (“E logo que ele começou a dirigir-se para lá, acudiram pela praia homens em grupos de dois, três, de maneira que, ao chegar o batel à beira do rio, já ali estavam dezoito ou vinte homens. Eram pardos, todos nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse as suas vergonhas. Traziam consigo nas mãos arcos e setas. Vinham todos rijamente em direção ao batel. Nicolau Coelho fez sinal que pousassem os arcos. E eles assim fizeram.” [ 1996:77]; “A feição deles é parda, algo avermelhada; de bons rostos e bons narizes. Em geral são bem feitos. Andam nus, sem cobertura alguma. Não fazem o menor caso de cobrir ou mostrar suas vergonhas, e nisso são tão inocentes como quando mostram o rosto” [1996: 79]). Como nota Marilena Chauí, esses aspectos ressaltados por Caminha na Carta “possuem um sentido preciso que não escapariam a um leitor dos séculos XVI e XVII: são os sinais do Paraíso Terrestre reencontrado” (2000). Esse sentido dado à natureza tropical, por sua vez, será reposto sucessivamente, tornando-se um elemento constituidor de identidade e de celebração nacional. Alguns exemplos para ilustrar a afirmação.
Sérgio Buarque de Holanda, no ensaio “Metastasio e o Brasil”, traduz a carta enviada por Basílio da Gama ao poeta italiano Pedro Metastasio. Ao auto-apresentar-se ao poeta italiano, Basílio assina a carta como Basílio da Gama Brasileiro. A auto-aprsentação como brasileiro é reforçada pela presença das palavras “florestas”e “índias” e pelo exotismo decorrente da ambientalização de Alceste e Cleonice numa arcádia tropical:
Ao senhor abade Pedro Metstasio. Viena. A homenagem da inculta América é bem digna do grande Metastasio. Este nome é ouvido com admiração no fundo das nossas florestas. Os suspiros de Alceste e Cleonice são familiares a um povo que não sabe da existência de Viena. Belo o espetáculo de nossa índias, chorando com seu livro nas mãos e fazendo uma questão de honra de não ir ao teatro sempre que a peça representada não seja de Metastasio. (1996: 592).
O gesto de Basílio de inserir a inculta América no contexto civilizado europeu não passará despercebido. Se a carta a Metastasio era praticamente desconhecida no Brasil, conforme comentário de Sérgio Buarque de Holanda, o poema épico O Uraguai será lido com entusiasmo pelas gerações seguintes. A presença da natureza americana será valorizada como marca de brasilidade pela crítica romântica e por seus antecessores europeus como Ferdinand Denis, Ferdinand Wolf e Garret, e a sua presença se transformará em critério de produção e julgamento da literatura brasileira. Escrever Brasil passa quase a ser descrever a paisagem circundante. Essa atitude romântica será incorporada pela poesia ufanista parnasiana. Esses textos, por sua vez, têm presença obrigatória nos livros didáticos das escolas brasileiras de primeiro e segundo graus. Dando dois exemplos: o carro-chefe da poesia romântica – “Canção do Exílio”, de Gonçalves Dias, e os sonetos ufanistas de Olavo Bilac – “Ama com fé e orgulho a terra em que nasceste! / Criança, jamais verás país como este! / Olha que céu, que mar que floresta! / A natureza, aqui perpetuamente em festa, / É um seio de mãe a transbordar carinhos”.
Esses lugares-comuns literários surgem em símbolos nacionais como a bandeira brasileira e o hino nacional. Marilena Chauí observa que, por serem herdeiras da Revolução Francesa, quase todas as bandeiras nacionais, criadas nos diversos países durante o século XIX e XX, são tricolores (poucas são bicolores), e as cores têm a ver com acontecimentos sóciopolíticos dos quais a bandeira é a expressão (2000). A bandeira brasileira, como sabemos, possui quatro cores cuja representação nada tem a ver com a história ou com a política. A nossa bandeira é antes de tudo a celebração da Natureza, da paisagem. De acordo com as palavras de Marilena Chauí:
O verde não representa “as lutas camponesas pela justiça mas representa nossas imensas florestas; o amarelo não simboliza a busca da Cidade do Sol, utopia de Campanella da cidade ideal, mas representa a inesgotável riqueza natural do solo pátrio; o azul não simboliza o fim da monarquia dos Bourbons e Orléans, mas a beleza perene de nosso céu estrelado, onde resplandece a imagem do Cruzeiro do Sul, sinal de nossa devoção a Cristo Redentor; e o branco não simboliza a paz conquistada pelo povo, mas a ordem (com progresso evidentemente). (2000)
Completando, a autora observa ainda que o Hino Nacional apresenta o mesmo fenômeno: canta mares mais verdes, céus mais azuiz, bosques com mais flores e nossa vida de “mais amores”. A utilização da paisagem como expressão cotidiana de identidade nacional será problematizada pelo projeto modernista de 1922. Vou observar essa problematização na obra de Oswald de Andrade.
Como já foi exaustivamente assinalado pela crítica brasileira contemporânea, não seria possível à versão modernista da identidade nacional eliminar os elementos constituidores do mito de origem presentes na Carta de Caminha e reproduzidos incansavelmente ao logno do século XIX. Por outro lado, igualmente apontado pela crítica, o programa modernista de 1922 é uma ruptura em relação às representações do país produzidas no século anterior. Essa ruptura decorre da constatação de que os elementos constituidores da identidade nacional, fixados por Caminha e restaurados pelo nacionalismo romântico, não traduzem mais o país, pois excluem os negros e outros imigrantes europeus. Nesse sentido, o mito país-paraíso corresponderia a uma paisagem produzida pela colonização, já que exclui do paraíso os negros e os outros europeus não-portugueses. Como essa questão é problematizada na obra de Oswald de Andrade? Conforme chamam a atenção Haroldo de Campos e Décio Pignatari, Oswald de Andrade, poética e programaticamente, produz, como dizem, “uma contínua transliteração do clichê idiomático, através de uma operação de estranhamento, por força da qual ‘os lugares-comuns se transformam em lugares incomuns’” (1998: 19). Esse estranhamento é alcançado através da liberação da percepção do mundo - “Nenhuma fórmula para a contemporânea expressão do mundo. Ver com olhos livres” (1977: 270) [grifo do autor]. Essa postura artísitca já pode ser percebida em texto publicado em O Pirralho, de 1915, “Em prol da pintura nacional”, depois publicado em Estética e cultura. Aí Oswald aponta para a impossibilidade da representação, via o academismo, da “nossa natureza tropical e virgem, que exprime luta, força desordenada e vitória contra o mirrado inseto que o quer possuir”, isto é, o artista afrancesado (1991: 142). A paisagem tropical não é paraíso; é força. Nesse sentido, como afirma numa entrevista concedida ao Jornal do Comérico, de Recife, em 1925, a utilização do totem vegetal do pau-brasil ser “a tendência mais vigorosamente esboçada nos últimos anos de aproveitar os elementos desprezados da poesia nacional. (...) a poesia brasileira, inspirada nos motivos existentes em nosso país. (...) Poesia de exportação oposta ao espírito de exportação” (1990: 37). Referência direta ao primeiro produto brasileiro de exportação, a proposta oswaldiana “ver com olhos livres” permite-lhe fixar os fatos poéticos da nacionalidade de forma simples, amoldando uma “expressão rude e nua da literatice numa sinceridade total e sintética: “A reação contra todas as indigestões de sabedoria. O melhor de nossa tradição lírica. O melhor de nossa demonstração moderna”. Isso é obtido através da produção de uma linguagem sintética, resultado da aglutinação de imagens justapostas: “Minha terra tem palmares” – palmeiras e palmares.
“Ver com olhos livres” permite-lhe perceber que nem tudo prometido na carta será realizado. Como observará mais tarde, em palestra proferida em 1948, posteriormente, incluída em Estética e Cultura, o brasileiro sabia que “a nossa terra não [era] o paraíso prometido por Pero Vaz Caminha”. E, continuando, diz: “Hoje a análise agronômica fixou as boas manchas e os ótimos rincões que são raros, mesmo no nosso estado de São Paulo. Plantando dá e não dá” (1991: 191).
Finalizando, “ver com olhos livres” abre caminho para algo que ainda não existia até então entre nós: “uma literatura de pobre” (1990: 222).
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